Como aproveitar o potencial educativo do futebol?

Publicado dia 16/03/2015

Nos gramados, nas quadras, no asfalto. Você certamente já participou de uma partida de futebol em um desses espaços ou pelo menos assistiu uma delas. Mas já parou para pensar que o futebol, para além de uma prática esportiva, também dialoga com questões sociais, culturais, históricas e políticas?

bola_futebol_-incomible_sQuando você joga futebol desenvolve o senso do coletivo e outras habilidades motoras, como coordenação, lateralidade, agilidade e velocidade. Mas há mais coisas a descobrir a respeito da tradicional “pelada”, que faz da prática um fenômeno ainda mais complexo.

Leia + : Além de ser motivador para os alunos, o esporte trabalha a socialização dos conhecimentos

Para Lívia Gonçalves Magalhães, mestre em Estudos Latinoamericanos pela Universidade Nacional de San Martín (Argentina) e autora do livro Histórias do Futebol, o esporte que é paixão nacional cumpre um papel social em via de mão dupla. “Ao mesmo tempo que a sociedade nos permite compreender alguns aspectos do futebol, ele, como importante elemento de identidade, sociabilização e política, é uma excelente ferramenta de análise social”, avalia.

O potencial educativo do futebol

Campeonatos regionais, nacionais e mundiais sempre trazem o esporte para o centro da discussão entre muitos estudantes: mudanças em escalações de times ou finais de campeonato sempre fazem a modalidade virar o centro das atenções nas rodas de conversa nas escolas. Além de aproveitar o momento para conversar e conhecer melhor os estudantes e seus colegas, é possível recuperar ou aproveitar o potencial educativo do futebol para trabalhar tanto aprendizagens que partam do ambiente esportivo, quanto diferentes temas e áreas do conhecimento. Vejamos algumas ideias:

Diálogo

chuteiras_-incomible_shutteO futebol apresenta a possibilidade de discutir o intercâmbio cultural em cada campeonato, seja ele nacional ou mundial. Basta olhar para a variedade de delegações que se encontram nessas disputas; cada uma delas tem algo a dizer de um município, estado ou país. Elas podem ser ponto de partida para uma pesquisa sobre as questões culturais, sociais, econômicas e políticas de cada um desses territórios.

Tanto na escola, quanto em grupos de discussão ou atividades na comunidade, você também pode se ater aos fenômenos – positivos e negativos – comuns às partidas do futebol para levantar temas para debate ou mesmo propor ações de mobilização social.

Para Carolina Moraes, assessora de projetos na Ação Educativa, os casos de racismo e homofobia que muitas vezes são vistos dentro de campo e nas torcidas têm muito a dizer sobre a necessidade de sermos tolerantes, de respeitarmos as diferenças em ambientes de paz; e isso diz de uma postura que tem como base o diálogo, o respeito e a convivência.

luvas_futebol_-incomible_sPropor um olhar para as torcidas organizadas, com suas expressões características – camisas, hinos, gritos de guerra – também é uma maneira de incluir a discussão sobre a questão da identidade, a ideia de pertencimento e mesmo de oposição. A partir desse cenário concreto, é possível refletir: As torcidas acabam duelando por quais motivos? Isso acontece só no esporte, ou seria possível traçar um paralelo com a política, com a religião? Como lidamos com o diferente?

Da mesma forma, é possível e interessante discutir a temática em diálogo com o impacto que os grandes eventos têm na sociedade. Foi o caso da recente onda de manifestações contra o mundial de futebol que aconteceu no Brasil em 2014, que questionaram, entre outros pontos, os custos do evento, a escolha de prioridades no orçamento público e o papel do Estado na garantia da segurança pública. A discussão, fundamental e presente em todas as mídias do país, pode ser recuperada e aproveitada, tanto por escolas, quanto por espaços de aprendizagem nas comunidades. É possível montar atividades para refletir sobre o tema de forma participativa, acolhendo diferentes pontos de vista e até propondo ações de transformação social.

Como exemplo, à época do mundial, um grupo de jovens criou o Imagina na Copa, iniciativa que tinha como objetivo despertar o poder de transformação dos indivíduos e mostrar que as pessoas podem contribuir na construção de um país melhor. A proposta incentivava atitudes positivas, para afastar o pessimismo e a desconfiança vieram em torno do campeonato, assumindo a agenda de “legado” como uma contribuição compartilhada e a ser construída por todos.

Conheça: impacto dos mundiais

O movimento “Copa das crianças de rua”, que atuou na ocasião, segue promovendo ações pela proteção das crianças em situação de vulnerabilidade nos mundiais. Como exemplo, na penúltima edição, na África do Sul (2010), o governo ordenou “varreduras” de crianças e adolescentes em situação de rua, para “escondê-los” dos turistas. Na época, a ação mobilizou organismos internacionais e nacionais em ações de mobilização para impedir a violação dos direitos daqueles cidadãos.

Também em diálogo com os protestos, o Colégio Viver, de Cotia (SP), promoveu uma semana temática para encorajar os estudantes a refletirem e problematizarem a agenda do mundial de futebol frente às pautas dos movimentos sociais, como por exemplo, a questão de mobilidade urbana, e com os interesses e preocupações dos próprios alunos.

cronometro_futebol_-incomibOutra possibilidade, complementar à discussão, é entender historicamente como a agenda dos campeonatos foi recebida em outros países. Um exemplo foi em 1978, quando o mundial aconteceu durante a ditadura militar na Argentina (1976-1983). Na ocasião o futebol foi utilizado pelos governantes como estratégia de manutenção do regime, mas, paralelamente, também virou um espaço de denúncia para os que se opunham à situação vigente.

 

Áreas do conhecimento

placar_futebol_-incomible_sÉ possível ainda atrelar o futebol mais diretamente às áreas do conhecimento e prever reflexões nesse sentido. Na área das exatas, a matemática pode olhar para a questão das estatísticas, saldo de gols, média de gols por jogador e de passes certos e errados; na física, algumas possibilidades em torno do movimento da bola e estudo sobre a sua constituição, o que a faz ser mais ou menos veloz.

Na área de humanas, a geografia pode explorar as cidades em que acontecem os jogos de campeonatos paulistas e brasileiros, e ampliar essa análise para a presença de diversos continentes e países no caso dos mundiais.

Práticas diversificadas

Confira o site especial “Práticas Pedagógicas para a Educação Integral”que reúne vasto material sobre possibilidades de pensar processos de ensino-aprendizagem que fortalecem o desenvolvimento integral dos estudantes.

Na História, Sociologia e Estudos Sociais a grande contribuição são os significados sociológicos do futebol, sua evolução com o processo de urbanização, já que o esporte se configurou muito próximo à formação e crescimento das cidades.

Outra ideia é discutir como o jogo se modificou ao longo do tempo, justamente em diálogo com as mudanças sociais: a presença do negro em campo, a criação das torcidas, o investimento público em estádios, etc.

Em atividades de Língua Portuguesa, é possível usar como base a própria cobertura jornalística dos eventos esportivos e produções de outras naturezas, como crônicas sobre futebol ou ainda perceber o papel do narrador em uma partida e como a narração difere da televisão para o rádio.

Habilidades socioemocionais

cartao_futebol_-incomible_sOutra abordagem possível é o trabalho com as habilidades socioemocionais, como liderança, trabalho em equipe, coletividade, entre outras. Segundo José Carlos Marques, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é fundamental que o processo educativo referende e ressalte essas características que o futebol fomenta, pois, segundo ele, a prática profissional do esporte tem valorizado cada vez mais o individual, muito por conta do reconhecimento de bons jogadores e da massiva publicidade em torno dessas figuras.

Assim, é preciso promover atividades que valorizem o caráter autoral do futebol, reconhecendo o contexto social e cultural das comunidades e possibilitando que estas possam criá-lo e recriá-lo de acordo com as suas necessidades. Nessa perspectiva, esse futebol permite o resgate não só do coletivo, mas da solidariedade, do respeito humano, contribuindo para a criticidade e autonomia dos envolvidos, todos aspectos fundamentais do desenvolvimento integral das pessoas.

O futebol como prática esportiva

apito_futebol_-incomible_shPara os especialistas, o futebol – enquanto jogo, prática esportiva – também empodera as pessoas. Nas escolas e projetos educativos, quando em contato com o esporte, os alunos resolvem melhor seus conflitos, cuidam mais do espaço e dos colegas e conduzem de forma mais autônoma um papel de liderança positiva. O esporte torna-se, então, mediador da convivência: criam-se regras, exercita-se a democracia participativa e, ainda que indiretamente, apoia-se a organização do espaço escolar.

Esse mesmo fio condutor, tendo o futebol como mediador de conflitos, é base da metodologia Futebol Callejero (Fútbol Callejero), que foi criada como uma resposta aos problemas comuns aos jovens da América Latina. Mas, em vez de um espaço escolar, a proposta olhou para as comunidades, com o objetivo de resgatar um espaço de protagonismo e diálogo, a partir do futebol.

O projeto partia da ideia de que os jovens poderiam conduzir partidas de futebol autogestionadas, em que todas as regras de participação, convivência e condução técnica fossem definidas por eles próprios, de maneira coletiva. Nasciam então as partidas de três tempos, acompanhadas por um mediador, que em nada lembra a figura de um juiz, já que este não interfere na dinâmica do jogo. No primeiro tempo, os times acordam as regras válidas; no segundo, jogam; e, no terceiro, conversam sobre algum tema que tenha sido recorrente durante a partida ou mesmo nos lances. Uma curiosidade do campeonato é que nem sempre o time com maior saldo de gols é o vencedor, isso porque os gols feitos de maneira coletiva, com mais passes de bola, valem mais do que as tentativas individuais.

Outra questão é que, nesta modalidade, obrigatoriamente, os times dessas comunidades devem conter meninos e meninas, aproximando da vivência desses jovens discussões como a questão de gênero e participação, sempre a partir de uma condução que tem por objetivo principal resgatar os direitos humanos e promover a liberdade, a autonomia. Segundo Rodrigo Medeiros, coordenador de mobilização do Mundial de Futebol de Rua, também é tônica da iniciativa o apelo pela ocupação das ruas, das cidades, aproximando o território da condução da aprendizagem desses jovens.

O futebol como ocupação do espaço

campo_futebol_-incomible_shNessa mesma perspectiva – de discutir a ocupação do espaço público e a valorização da apropriação coletiva da cidade -, um grupo de estudantes e um professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) realiza jogos coletivos em diferentes públicos da cidade. Chamado de BAixo BAhia, em alusão à Rua Bahia, importante via da cidade e onde as ações começaram a acontecer, as jovens – todas mulheres – buscam a experimentação e compartilhamento do espaço da rua.

Em ação semelhante, a Associação de Apoio à Criança em Risco (ACER Brasil) conduz o projeto Futebol e Cidadania, que associa a apropriação do espaço público, futebol e mediação em uma proposta educativa na e para a comunidade.

Juntas, convidam pessoas das regiões da capital mineira para jogar “contra” o grupo, propondo que outros se reúnam à tônica do coletivo e, juntos, aprendam a discutir e pensar o espaço, ao mesmo tempo em que se divertem e brincam com o futebol. Sem planejamento prévio, todos aprendem e ensinam com as surpresas que a própria rua apresenta: variam os tamanhos dos times, a disposição dos gols e traves, o formato do campo, e até o número de bolas em jogo. E, assim como na experiência iniciada na argentina, o jogo acaba quando há consenso do seu fim – tudo é negociado e todos são vencedores da proposta.

Escola

Como integrar e utilizar o potencial educativo das praças?