Protagonismo juvenil impacta ações e políticas em São Miguel Arcanjo

Publicado dia 13/03/2015

“Eu sou Sérgio Batista Furquim, filho de funcionário público que trabalhou 20 anos na prefeitura de São Miguel Arcanjo e morreu porque o médico que o atendeu sequer levantou da cadeira para avaliar seu coração.” Esse depoimento foi um dos que ecoou na Câmara de Vereadores do município do interior de São Paulo, em 2012 em um cenário da cidade buscando fortalecer o protagonismo juvenil.

Um a um, os jovens tomaram a frente no Legislativo para apontarem sugestões de melhorias para a cidade; 200 deles encaminharam suas ideias. Esse movimento, genuinamente juvenil, nasceu da luta pelo acesso a um território digno, respeitoso e acolhedor de crianças, jovens e idosos e da negativa premente dos principais problemas existentes na localidade: trabalho infanto juvenil semi-escravo, abuso sexual de crianças e jovens, miséria e pobreza em estado de naturalização, reforçando a ordem social injusta instalada na região.

Um caminho de articulação

A audiência pública “Políticas Públicas Para a Juventude” nasceu a partir de uma articulação entre os diversos sujeitos da “Rede de Solidariedade de Atores Sociais e Culturais da Juventude”, que compreende diretórios estudantis, alunos e professores dos Colégios Sadamita Iwassaki, Arrivabene, Maria Elisa e Nestor Fogaça; jovens do Centro de Integração Social Curumim, da Equipe de Luta de Braço, e de movimentos do rap, grafite, dança de rua, música, entre outros.

Essa mobilização e consciência política coletiva amparou o início de ações para repensar a educação, em proposta antagônica à lógica tradicional de transmissão de conhecimento e informação. “Para nós isso é o que obstrui a possibilidade de fazermos do nosso município, da nossa comunidade, um lugar em que a educação acontece em todos os cantos, becos, campos, praças”, coloca Rodrigo Castro Francini, um dos coordenadores da Rede, fazendo menção ao principal direcionamento do conceito, a que chamam de Cidade Escola.

Querência
Anda por tua cidade.
Palmilha essa instância querida
Perscrutando em seus recantos
Teus próprios recônditos.
Conversa sob a garoa ou sol ou sombra
Com os olhos de tua gente.
Vê as paredes, abraça teus concidadãos.
Toma os bondes, entra nos bares.
Caminha e bebe – partilha!
Esquece tua idade e descrença.
Trilha por tuas vontades
E pelas necessidades do teu povo.
Anda por tua cidade.
Palmilha essa instância querida.
Queiras estar onde estás
Até as horas de partidas
E quando voltares (e vires o novo)
(Pois voltarás, de algum modo!)
Bem-digas o chão que volta,
Que retorna ao teu coração
Renovando teu bem-quereres,
Tua criança e tua fé.
(Rodrigo Castro Francini; publicado no blog Cidade do Anjo)

Desde então, a Rede vem buscando, sobretudo, convocar a comunidade a assumir suas responsabilidades educacionais e combater as problemáticas sociais ainda presentes no território.

Para tanto, o grupo tenta estimular que os processos educativos aconteçam de maneira mais democrática e autônoma, e não contar somente com os espaços escolares. Dessa forma, as rodas de encontros, as assembleias e as demais atividades promovidas pela cidade se configuram na apropriação do espaço público, a partir do interesse e envolvimento dos indivíduos, respeitando responsabilidades individuais e coletivas.

A proposta vem sendo amplamente discutida por pesquisadores voluntários da cidade, que também tentam levá-las para o âmbito das políticas públicas. Há uma aproximação e incidência nos Conselhos Municipais, em especial o dos Direitos das Crianças e Adolescentes, da Assistência Social e de Educação, promovendo que as pautas da juventude efetivamente sejam contempladas nas legislações e instrumentos públicos locais.

O Programa SMA e a Juventude

Todas as reflexões levaram ao modelo do SMA e a Juventude, um programa educativo que, para Rodrigo, hoje é a maneira mais palpável de lutar pela metodologia de protagonismo e autonomia juvenil. O objetivo central é, a partir das demandas da juventude, possibilitar a discussão, o estudo, a reflexão, a formação de sujeitos-sócio-históricos capazes de construir as estruturas necessárias para o desenvolvimento integral da comunidade e das pessoas que nela vivem.

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Jovens em atividade na comunidade. Foto: Reprodução

As atividades se estruturam a partir de dois núcleos principais: pensamento e comunicação e conscientiz-ação, no qual são ofertadas diversas oficinas: de artes, pedagógicas, de reflexão, de expressão, ações culturais, políticas, sociais, esportivas, econômicas realizadas em escolas, pontos de encontro ou diferentes espaços da cidade, que contam também com a participação de membros de movimentos e coletivos externos à rede.

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Atualmente, há uma atuação no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos possibilitado via Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). O trabalho é direcionado a jovens em medida socioeducativa ou demais medidas socioassistenciais para fortalecer o protagonismo juvenil. São atendidos cerca de 200 garotos e garotas que contam com apoio de assistente social, psicólogo, cientistas sociais, pedagogos e professores.

“Com eles, conseguimos colocar em prática a ideia do educar-se, ou seja, um processo em que a educação acontece de maneira simultânea de modo que se interpenetram as complexidades e as subjetividades do ser e do saber todos os lados”, atesta a educadora Elaine Silva.

As atividades no serviço buscam, sobretudo, a reintegração desses jovens na sociedade a partir do entendimento de seus direitos cidadãos e do fortalecimento do protagonismo juvenil0. “Não é adestrar ninguém, nem enquadrá-los segundo as convenções sociais, mas construir de maneira conjunta esse percurso educativo”, explica Rodrigo.

Principais resultados

Embora ainda recente, a iniciativa de protagonismo juvenil alcança mais de 150 jovens em atividades diferenciadas que fortalecem seu desenvolvimento integral e protagonismo social. Paralelamente, como uma das grandes conquistas da proposta é a estruturação da própria rede que, em pouco tempo de atuação coletiva, conseguiu ampliar a percepção dos envolvidos sobre os direitos da juventude no município.

Jovens ocupam e discutem o espaço público da cidade. Foto: Reprodução

Jovens ocupam e discutem o espaço público da cidade. Foto: Reprodução

Para tanto, a rede valoriza o protagonismo juvenil por meio do diálogo com os diferentes segmentos juvenis, ampliando a perspectiva socioassistencial para ações de protagonismo coletivo  no desenvolvimento do território e, consequentemente, do acesso e garantia de direitos da população jovem. Em um contexto autoformativo – em que as organizações, instituições e indivíduos aprendem uns com os outros e discutem suas experiências -, o trabalho realizado responde ao interesse de todos e, principalmente, parte das necessidades e desejos de aprendizagem do público-alvo.

Como ações futuras, a rede pretende estender o diálogo com as escolas, incidindo, a partir da prática, nas questões curriculares e na discussão de São Miguel como uma cidade educadora.

Contato

Site: Cidade Escola – um lugar para educar-se

Facebook: https://www.facebook.com/cidadeescolasma

Telefone: (15) 996255496

 

Escola

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