Projeto Equidade reduz pela metade evasão em 48 escolas de Curitiba

Publicado dia 12/09/2016

Em 2013, o resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) apontou que das quinze melhores escolas públicas de ensino fundamental do país, cinco estavam em Curitiba. O resultado foi celebrado. No entanto, uma luz amarela começou a piscar, já que ao mesmo tempo em que a cidade tinha escolas públicas de excelência, outras instituições obtiveram resultados ruins nas avaliações do Ministério da Educação (MEC).

O retrato apontado pelo Ideb de 2013 apontava, portanto, um quadro de desigualdade de oportunidades educativas. A equipe da Secretaria de Educação de Curitiba, comandada por Roberlayne de Oliveira Borges Roballo, decidiu fazer uma profunda avaliação do porquê determinadas escolas tinham um resultado pior que outras.

Os dados do Ideb e da Prova Brasil ajudaram a secretaria a ter alguma noção do que ocorria na rede, mas não davam um diagnóstico preciso e completo da situação de cada uma das mais de 180 escolas municipais da cidade. Roberlayne de Oliveira explicou ao Centro de Referências em Educação Integral que os índices de avaliação são importantes, mas não explicam tudo.

“Usamos o Ideb, a Prova Brasil e os índices de evasão que são referencias importantes, mas decidimos ir além e descobrimos as taxas de analfabetismo no entorno de cada escola, quantos beneficiários do Bolsa Família existiam na região e qual a renda média familiar per capta do bairro para entender a realidade dos colégios para além dos seus muros”, afirmou a secretária de Educação de Curitiba.

Gráfico mostra dados obtidos com pesquisa da secretaria. Fonte: Jornal Gazeta do Povo.

Gráfico mostra dados obtidos com pesquisa da secretaria. Fonte: Jornal Gazeta do Povo.

Depois de concluir a pesquisa, a Secretaria decidiu fazer o Projeto Equidade. O primeiro passo foi se reunir com os diretores de cada uma das 48 escolas selecionadas para participar do programa. Os resultados coletados pela Secretaria foram apresentados e os diretores foram chamados a participar.

O passo seguinte foi dialogar também com os docentes, por meio de professores que acompanham as escolas de suas subprefeituras. A política saiu dos muros das escolas para atingir também as famílias dos estudantes.

Uma das conclusões da pesquisa é que fortalecer a relação escola-família é um ponto chave para aumentar o envolvimento das crianças no processo de ensino-aprendizagem.

“Diagnóstico, formação pedagógica para os formadores e mobilização conceitual com as famílias, o que foi algo inovador e de grande reflexo. As famílias foram convidas a entraram na escola. Falamos para elas sobre o quão importante isso é para a educação de seus filhos e com isso revertemos situações de baixa frequência, pois os muitos pais entenderam a importância de ir à escola”, contou Roberlayne.

Formação continuada

Uma das grandes preocupações do programa foi garantir formação continuada para os professores das escolas. Essa é uma das preocupações recorrentes no país, porém a maior parte das políticas colocadas em prática encontram problemas. Um dos diagnósticos em Curitiba é que o processo de formação precisa fazer sentido para os docentes.

Assim, não adianta apresentar modelos, fórmulas brilhantes no papel, mas alheias a realidade do chão da escola, ou seja, é necessário que esse processo leve em conta o contexto social. Ensinar em uma escola pública de Pinheiros, bairro de classe média de São Paulo, é completamente diferente de ensinar em uma escola rural ou em bairros periféricos das grandes cidades do país e a formação deve levar em conta isso.

No Projeto Equidade, a Secretaria de Educação teve essa preocupação e buscou um processo de formação diferenciado. O primeiro passo foi capacitar os formadores. Tais profissionais garantem que o processo chegue a todos docentes, alocados nas subprefeituras da cidade. Esses profissionais das subprefeituras, por sua vez, são os que transmitem o processo aos docentes dos colégios de sua região. Nesses encontros, além da formação, também são elaborados os planejamentos didáticos.

A Secretaria de Educação de Curitiba, Roberlayne de Oliveira Borges Roballo

A Secretaria de Educação de Curitiba, Roberlayne de Oliveira Borges Roballo

“Nosso processo de formação funciona dentro das microrregiões da cidade. Reunimos professores que estudam juntos e fazem planejamento em conjunto. Eles aprendem metodologias e outros referenciais com outros docentes que estão em um contexto social próximo ao dele”, afirmou a secretaria.

Recursos e desenho do programa 

Além da formação docente e do envolvimento com as famílias, outra preocupação foi garantir um recurso a mais para cada uma das escolas do projeto. Roberlayne explica que cada colégio participante recebe 10% a mais de verbas que as demais da rede municipal.

“Muitas escolas estavam sem material didático, sem papel higiênico, precisando de reformas estruturais. Isso para quem está distante pode parecer pouco, mas valoriza o local de ensino e faz com o estudante tenham mais vontade de vir à escola e motiva o próprio professor”, conta.

Parte dos técnicos diretamente ligados ao Projeto Equidade posam para fotos no pátio da Escola Municipal Omar Sabbag, no Cajuru. Crédito: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Parte dos técnicos diretamente ligados ao Projeto Equidade posam para fotos no pátio da Escola Municipal Omar Sabbag, no Cajuru. Crédito: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

O programa, portanto, aproximou as famílias e envolveu os professores e gestores no projeto. Cada escola tem um desenho diferente que se adéqua à sua realidade. Na prática, em algumas escolas foi necessário dar reforço escolar no contraturno; em outras, uma aula de reforço semanal conseguiu dar conta das demandas das crianças.

“Não existe desenho único. Cada escola tem um desenho específico com metas para vencer problemas específicos junto com diretores, professores e famílias e isso movimentou muito a rede”, afirmou Roberlayne.

Outra preocupação com o desenvolvimento integral das crianças foi buscar garantir condições mais equânimes de acesso a instrumentos de cultura e esporte.”Realizamos um amplo trabalho cultural e trouxemos mais saídas para as crianças irem ao teatro cinema porque muitas vezes estão em áreas em que não tem nada no entorno”, afirmou.

Reprovação

m ano de equidade 6 / 7 Professora faz relato de experiência para os colegas - diminuição de evasão e repetência é comemorada. Crédito: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Professora relat experiência para os colegas.  Crédito: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

A pesquisa realizada pela secretaria também identificou que a questão da reprovação era determinante para evasão escolas e também afetava a frequência. O aluno reprovado muitas vezes não encontra estímulo para continuar estudante e aos poucos começa a abandonar o espaço.

“Nosso lema maior é: nenhuma criança deve ser deixada para trás. Conselho de Classe foi um foco nosso. Mostramos aos professores que não podemos perder estudantes com avaliações radicais que não levam em conta o contexto”.

Resultados

Em apenas um ano de força tarefa, o projeto reduziu pela metade as taxas de evasão entre as 48 escolas participantes em um processo que envolveu 26 mil estudantes. Os índices de reprovação seguiram a mesma tendência de queda, caindo mais de dois dígitos.

Saiba mais e acesse outros materiais sobre a dimensão Avaliação e Monitoramento no guia Educação Integral na Prática.