Escola-museu no Tennesse (EUA) apoia-se na comunidade para aprendizagem significativa

Publicado dia 24/09/2014

Segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa, a palavra museu se refere a uma “instituição dedicada a buscar, conservar, estudar e expor objetos de interesse duradouro ou de valor artístico, histórico etc.”. Com esta perspectiva em mente, o modelo norte-americano de escolas Magnet [escolas públicas com currículo especializado] criou, em 2002, a Escola Magnet Museu Normal Park, em Chattanooga, no Tenneesse, nos Estados Unidos.

Lá, os estudantes – de 5 a 14 anos – se tornam autores e também curadores do seu processo de aprendizagem. Além da participação e intensa vivência no desenvolvimento de projetos, os alunos apresentam seus trabalhos regularmente à comunidade escolar e do entorno: a cada nove semanas, todos apresentam os resultados do que fizeram como uma exposição de museu. Nestas visitas à escola, as pessoas da comunidade podem opinar sobre os projetos, sugerir novas intervenções e até disponibilizar seu apoio, encontrando formas para contribuir com os processos pedagógicos da instituição.


Vídeo em inglês

Em sua missão, a escola se propõe a “cultivar sabedoria e cidadania em todos os alunos, preparando-os para o futuro e desafiando-los a descobrir-se e ao mundo”. Dessa forma, a gestão escolar e a equipe docente compartilham de valores-chave em todas suas ações: apreciação, colaboração, criatividade, descoberta, paixão pelo conhecimento e esperança. Para a instituição, é só reconhecendo o desenvolvimento individual de cada criança e de cada docente que o sucesso acadêmico se constrói. Por isso, lá, todos têm acesso a uma imensa gama de possibilidades de aprendizagem, que inclui também percursos integrados ao currículo em sete equipamentos museológicos da cidade.

Sem seleção acadêmica

Embora muitas escolas do modelo Magnet façam exames de seleção dos estudantes, a Normal Park abre matrículas por sorteio. O único critério é morar em um dos distritos atendidos pela unidade.

No lugar de ficar apenas na sala de aula, os estudantes acessam a comunidade e transitam por diferentes espaços livres da escola, que estão diariamente repletos com as suas intervenções e projetos. Para tanto, a escola oferece expositores com qualidade de museu, tanto para valorização, quanto para preservação das obras dos estudantes. As paredes são todas ocupadas por murais coloridos e existem variados espaços de intervenção dos alunos, garantindo que eles possam comunicar suas experiências e efetivamente fazer parte do espaço.

Paralelamente, artistas da comunidade são regularmente convidados a expor suas obras na escola, com momentos abertos ao público geral, mas especialmente priorizando o envolvimento da comunidade escolar e a relação delas com o trabalho pedagógico da instituição.

Currículo

Estudantes em uma das expedições pela comunidade. Foto: Reprodução

Estudantes em uma das expedições pela comunidade. Foto: Reprodução

Para a escola, a chave do processo curricular está na colaboração, tanto entre professores e estudantes e entre estudantes, quanto com as instituições da comunidade. Por isso, semanalmente, todos participam de expedições curriculares pelos museus parceiros, como o Museu Hunter de arte americana, o Aquário do Tennessee, o Centro de História, o Zoológico  e o Centro Natural de Chattanooga, o museu de Descobertas Criativas e o Centro Cultural Bessie Smith. Além da visita, o diferencial é que a escola planeja conjuntamente com as equipes educativas das instituições o percurso a ser feito. Nos espaços, os estudantes participam de atividades que dialogam diretamente com o que o aluno está desenvolvendo em sala de aula.

Normalmente interdisciplinares, as experiências nos museus se relacionam também com os projetos e temas das exposições dos alunos. Para complementar o aprendizado, a escola aciona outros parceiros da comunidade, como o tribunal de justiça, o centro de artes da cidade, teatros e parques locais.

Tanto nas expedições à comunidade, quanto nas aulas na escola, a proposta é a de fortalecer a autonomia do estudante, incentivando-o a manter o desejo de aprender ao longo da vida. Para tanto, o corpo docente trabalha em módulos trimestrais e aprendizagem por problemas, apresentando o resultado final como ponto de partida da investigação acadêmica. As questões disparadoras têm sempre uma relação com a comunidade, com os temas da juventude ou com o que as instituições parceiras discutem.

Estande com exposição dos alunos. Foto: Reprodução

Estande com exposição dos alunos. Foto: Reprodução

Amparada por tecnologia, a escola faz uso de lousas digitais de aprendizagem e de notebooks encorajando a interação e colaboração entre os envolvidos. Mas, além dos recursos digitais, os estudantes mantém diários de bordo, nos quais são convidados a descrever o que aprenderam, suas dúvidas e questionamento sobre o currículo e o programa escolar. Estas reflexões auxiliam – trimestralmente – a Normal Park a rever sua proposta pedagógica. A instituição apoia o acompanhamento personalizado do docente com seus alunos.

Além disso, a escola trabalha com aulas de escrita estimulando, inclusive, a publicação dos trabalhos dos estudantes; aulas de modelos matemáticos em um método que associa a ciência às questões do mundo contemporâneo; leitura guiada em sala de aula, tanto em grupos, quanto individualmente, incentivando o debate na compreensão de textos; e uso constante de laboratórios de ciências, apoiando a experimentação e o “aprender fazendo”.

Avaliação

Alunos em atividade. Foto: Reprodução

Alunos em atividade. Foto: Reprodução

A Normal Park trabalha com múltiplos recursos avaliativos. Embora existam provas, elas têm a função de orientar o professor no acompanhamento do estudante. No lugar, os meninos e meninas se autoavaliam a partir dos seus portfólios. Já seus trabalhos, expostos à comunidade, recebem críticas, sugestões e apreciação de terceiros; tudo sempre na perspectiva da colaboração.

Durante todo o processo, o educador indica as expectativas de aprendizagem aos estudantes, tornando-os copartícipes do processo.

Como atividades complementares, os estudantes podem participar de oficinas de teatro (tanto em atuação, quanto em produção cênica), dança, artes visuais, banda de fanfarra, banda de jazz e coral.

Principais resultados

Crianças e adolescentes em uma das bandas escolares. Foto: Reprodução

Crianças e adolescentes em uma das bandas escolares. Foto: Reprodução

Em 2005, a escola foi considerada a melhor escola no modelo Magnet, e de 2005 a 2012, recebeu prêmios de excelência na educação do país. Seus estudantes egressos apresentam excelente percurso acadêmico, tanto no ensino médio quanto na universidade e carreira profissional, indicando, para a escola, que a proposta de aprendizagem autônoma segue presente na vida de cada aluno.

Considerada pela Edutopia, plataforma virtual sobre modelos educacionais, como uma “escola que funciona”, a Normal Park também reconhece seu trabalho com os estudantes na discussão de diversidade. Sem seleção, os alunos vêm de famílias com origens, culturas e perfis socioeconômicos distintos.