Escola Comunitária Cirandas: o diálogo como base para a diversidade

Publicado dia 11/05/2015

escola_comunitaria_cirandas“Contemplar a diversidade”. Essa é uma das principais tônicas da Escola Comunitária Cirandas que, em seu primeiro ano de existência, vem constantemente se repensando para garantir a diretiva em seus processos. A instituição nasceu em fevereiro de 2014, em Paraty (RJ), a partir de uma demanda local por uma escola mais humana, significativa e em consonância com as necessidades da comunidade.

O desenho sobre o qual a instituição se molda nasceu de um esforço coletivo de educadores e pais em diálogo com diversos contextos socioeconômicos e culturais. Uma das diretrizes dessa estrutura é a natureza sem fins lucrativos da unidade, vinculada ao Instituto Oju Moran, que garante bolsas de estudos a 50% de seus alunos, sendo 25% integrais e 25% parciais.

Gestão por consentimento

Além de acolher a diversidade dos estudantes, a escola também cuida para ter múltiplas vozes em sua gestão, a partir de um modelo bastante específico. Há um conselho gestor nível deliberativo composto por cinco representantes da comunidade – a diretora e mais um membro da equipe escolar, um membro do Instituto Oju Maran e dois familiares – sendo estes e o profissional da escola eleitos por seus respectivos grupos; no nível consultivo, há um fórum escolar aberto a toda a comunidade; e, no nível executivo, a equipe escolar com seus 17 educadores – dentre os quais se enquadram todos os profissionais, independente da atuação direta em sala de aula, como cozinheiras, faxineiras e secretárias – e comissões de trabalho compostas por pais, equipe e amigos da escola.

“Os adultos tem que ser aquilo que a gente espera ver nas crianças”, atesta a vice diretora Mariana Benchimol. O modelo ‘gestacional por consentimento’ condiciona as tomadas de decisão a discussões e apresentação de argumentos, e não ao número de pessoas que aderem a determinadas opiniões.

Ciclo de aprendizagens

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Créditos: Reprodução

O grande balizador do trabalho com as crianças é o nível de desenvolvimento delas. Todas frequentam o mesmo ciclo e são inseridas nos conhecimentos a partir da execução de projetos que elas mesmas identificam de acordo com seus interesses, sob orientação dos educadores.

Nessa dinâmica, o conteúdo curricular aparece de maneira interdisciplinar aos projetos, a partir das competências discriminadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). A escola entende que os conhecimentos transitam pelo mundo e pelas relações que nele se estabelecem, e acredita que o método é capaz de favorecer essas trocas de experiências.

As crianças são encarregadas do desenvolvimento de um plano de trabalho semanal que, diariamente é acompanhado pelo educador. No período em que estão na instituição – das 8h às 15h20 em período integral obrigatório e até às 17h em caráter estendido -, as crianças encontram aulas que dialogam com as temáticas presentes e outras que suscitam aprendizagens próprias, como música, inglês, educação ambiental e alimentar e guarani, presente até o ano passado.

As iniciantes no processo de alfabetização e recém chegadas à escola são destinadas a uma turma de iniciação para que elas tenham os primeiros contatos com as letras, os números e o método de projetos, ainda de maneira simplificada. Não há um tempo determinado para essa fase visto que o que conta é o desenvolvimento integral da criança, e a maturidade em seus diversos aspectos, cognitivo, social e psicológico.

Diário de bordo

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Créditos: Reprodução

As atividades com os alunos não são avaliadas de maneira pontual. O que conta para a instituição é o processual. A partir dos PCNs, a equipe conseguiu estabelecer uma base interna e por ela vão avaliando o conhecimento que a criança já adquiriu, o que não adquiriu ou o que falta ser contemplado. Esse acompanhamento diário, diz do desenvolvimento cognitivo, mas também do social, físico, da autonomia de cada indivíduo.

Essa leitura é fundamental para que os educadores reconheçam se as próprias crianças vêm se desafiando frente aos conhecimentos ou não. Com isso, é possível que percebam quando é possível avançar com as aprendizagens ou não.

Além disso, a escola tem um sistema de monitoramento e avaliação, também construído coletivamente com a participação do conselho gestor e da comunidade, em que estão postas questões avaliativas dos processos e resultados. Embora com um ano de funcionamento, a instituição está indo para o terceiro relatório em 2015.

Possibilidades formativas

A base para a organização escolar é o estudo. Nesse sentido, a instituição lança mão de alguns momentos formativos, prevendo o diálogo necessário entre a escola, seus atores e toda a comunidade. Uma vez por semana é feito um grupo de estudos aberto, momento em que os educadores ativos da escola , ao lado dos demais ouvintes, tragam para discussão questões pedagógicas contidas em livros, experiências educacionais ou outros registros. A ideia é que se tenha um resumo sistematizado do tema exposto e que ele conste em uma pasta disponível para a comunidade.

As reuniões pedagógicas e administrativas, também semanais, organizam discussões do dia a dia escolar. Além disso, com apoio do Instituto Oju Moran, os educadores têm acesso ao Programa de Apoio à Formação de Educadores (PAFE) que viabiliza apoio em três frentes principais: formação científica, com aporte financeiro em cursos de graduação, pós-graduação, congressos e palestras; formação prática, com apoio para viabilizar estágios, oficinas ou visitas a experiências de referência; e formação coletiva, direcionada a educadores que querem apoiar a educação em Paraty, com oferta de cursos, palestras, encontros ou outras atividades.

A inscrição dos educadores é feita por um edital lançado anualmente. Em caso de seleção, como contrapartida, o educador deve se comprometer a oferta uma ação socioeducativa preferencialmente nos espaços escolares ou comunitários de Paraty, uma maneira de contemplar o desenvolvimento territorial. Além disso, é necessária a participação nas Mesas de Trocas, encontros mensais realizados com todos os candidatos aprovados pelo PAFE ao longo de 2015, com a intenção de estudos e troca de experiências educacionais.

Outro diálogos

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Por trabalhar com projetos e possibilitar o trânsito de temas diversos, a escola considera a participação de especialistas nas devidas áreas de conhecimento. Frequentemente, esses profissionais são convidados para mediar esse conhecimento junto com os educadores e crianças, trazendo contribuições mais técnicas e que podem apoiar na condução formativa. Além disso, o espaço escolar procura dialogar com as demandas territoriais se abrindo a atividades culturais do entorno oferecidas para a comunidade.

Principais resultados

Embora considere todos os processuais importantes, a instituição reconhece que o acolhimento é um dos principais ganhos da educação que vem se estabelecendo dia a dia. A dinâmica da instituição permite a aproximação da equipe com as crianças e com seus familiares, em uma atitude que responsabiliza a todos os atores no percurso formativo.

As competências são trabalhadas em todos os níveis e a aprendizagem conduzida próxima da dimensão afetiva, com relações mais horizontais e significativas não só para a escola, mas para todo seu entorno.

Contato
Escola Comunitária Cirandas
Fone: (24) 3371-8452
Site: http://escolacirandas.com/
Facebook: www.facebook.com/CirandasParaty